terça-feira, 29 de novembro de 2022

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

chega o temporal

chega o temporal —
um pardal busca refúgio
debaixo da telha

***

debaixo da telha —
o pardal ainda espera
pelo fim da chuva

depois da chuva

depois da chuva —
passarinhos retornam
de canto em canto

cultivo de arroz

cultivo de arroz —
e nas molduras de terra
pedaços do céu

sábado, 26 de novembro de 2022

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

A CHUVA

Lá fora a chuva cai de lado a lado
além da transparência da janela
e penso que é um espelho que revela
a mim o que é de mim não revelado.

Revejo em cada gota algum pedaço
da minha sucessão de primaveras
e penso que é um espelho que revela
o quanto que me tenho derramado.

Quem sabe eu possa ali achar um norte
(alguma direção que me conforte
dos erros que me inundam catedrais),

mas tudo o que consigo é muito pouco
(é vão querer buscar algum consolo:
a chuva é só a chuva e nada mais).

retalhos em tons

retalhos em tons
de marrom até o verde —
campos de cultivo

terça-feira, 22 de novembro de 2022

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

domingo, 20 de novembro de 2022

Quando foi que nasceu? Nunca soubemos

Quando foi que nasceu? Nunca soubemos
e nunca foi preciso descobrir.
Sentíamos seu pulso em cada beijo
e bastava saber que estava ali.

Cada encontro era sístole e as esperas,
diástoles. Cada gesto carinhoso,
alento, e cada fim de uma conversa
era a antecipação do reencontro.

Mas foi, desde não sei qual tempo atrás,
afogando nalgum silêncio bruto e
percebemos só quando demos mais
um beijo e não sentimos mais seu pulso.

Morreu conforme foi seu nascimento:
quando foi, nós também nunca soubemos.

sábado, 19 de novembro de 2022

rio de janeiro

rio de janeiro —
da baía até rocinha
vejo aos pés do cristo

***

rio de janeiro —
da baía até rocinha
vejo o redentor

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Quatro haicais desconfortáveis

rã mutilada —
o resto o gato deixa
para as formigas

***

ninho no armário —
e dos ovos eclodem
as baratinhas

***

o velho cão —
do choro sufocado
segue o silêncio

***

terneiro morto —
cada urubu que passa
pega um pedaço

sábado, 12 de novembro de 2022

terça-feira, 8 de novembro de 2022

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

PARTIDA

Quando amanhã o sol se despontar
no alto da serra e iluminar meu rosto,
vou acordar convicto como um louco
e fazer minha trouxa de exilado.

Roupas finas, sapatos bem cuidados,
pois não precisarei pisar no lodo
nunca mais: eu farei um novo sonho
quando amanhã o sol me iluminar.

Vou acordar despido dos receios,
com bússola pulsante no meu peito
e a certeza de rumo guarnecido.

Vou acordar, abrir minha porteira,
preparar minha égua na cocheira
e galopar como tropeiro antigo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Issa: 古犬が先に立也はか参り

visitando túmulos —
o cachorro sempre sabe
qual é o caminho

Uma alternativa mais fiel poderia ser

visitando túmulos —
o velho cão vai na frente
mostrando o caminho

***

o velho cão
vai mostrando o caminho —
visita aos túmulos

sol de meio dia

sol de meio dia —
ondula e ondula a lagarta
procurando sombra

terça-feira, 1 de novembro de 2022

vênus no horizonte

vênus no horizonte —
junto ao fim da madrugada
nossa despedida

dois haicais numa chuva de meteoros

céu de primavera —
e de repente uma estrela
cai da via-láctea

***

à noite toda
olhando para o céu —
chuva de estrelas